segunda-feira, 7 de junho de 2010

Clarear

Claro que eu poderia ter pedido um café. Poderia ter pego sua mão e sido mais clara com você. Poderia ter falado do céu, do frio e do menino que pede alguma dignidade, logo ali na esquina. Eu poderia ter dito que está tudo "fora do lugar" e sendo assim, tudo desencaixado. Mas que estamos tentando, parados fazer algo. Podia ter citado schiller, deleuze, kant e nietzsche. Não. nietzsche não. Ainda não o li com atenção. Poderia ter falado da relação de jogo livre entre as coisas. E te fazer entender que cada tem seu tempo para as relações e entendimento e mudanças e fim. Poderia afirmar que isso é importante para mim. Poderia ter dito a vontade de mudar. De quarto, de casa, de vida, de atitude. Às vezes. Outras , a vontade de ficar. Em casa, no quarto e quieta. Poderia ter falado dos alguns livros comprados, à mostra na minha estante, porém nunca abertos. Ou lidos pela metade. São poucos. São todos. Poderia ter voltado a falar dessa falta de atitude minha que não devolve ao menino da esquina do café a dignidade que ele merece. E ter desistido de dar-lhe esmolas e comprar-lhe um lanche, ou um almoço. E trocar algum afeto com ele. Levá-lo à uma biblioteca, à escola. Sei lá. Escolher adotar. Mudar alguma coisa ao redor. Sem grito. Sem essa politica dos " pedras nas mãos", mas mudando num movimento não agressivo. E depois viajar. Conhecer o mundo. Conhecer-me no mundo. E ver que sou pequena, quase nada, no meio disso tudo. E beijar outras milhares de bocas, grandes, pequenas, grossas, finas, rosadas, pálidas. E dizer je t'aime, I love you,Ich liebe dich e outros blábláblás. E me apaixonar à primeira, à segunda, à décima vista. E amar vários corpos. E ser livre e leve e solta. E ser clichê. E logo depois não ser. E tomar café da manhã na cama com alguém quem eu deseje casar e ter filhos. E fazer arte. No café. No menino. Na calçada. Nos carros. No museu. No teatro. Sem fim. Fazer algo para modificar. Eu poderia, se você parasse de falar em nós, em piso, em anel.

Um comentário:

Diogo Liberano disse...

ah! q coisa! ah! quero chorar!